Algures no seu rolo da câmara há uma fotografia de um recibo, de uma palavra-passe de Wi-Fi num quadro branco, ou de um sinal de estacionamento que fotografou «para me lembrar». O seu iPhone consegue mesmo ler o texto dessas fotografias e deixá-lo pesquisá-lo. Funciona mais vezes do que as pessoas esperam — e falha de formas que vale a pena perceber antes de confiar nele.

Eis como usar isto, e onde estão as fissuras.

Pesquisar uma palavra: a versão de 30 segundos

  1. Abra a aplicação Fotografias.
  2. Toque em Pesquisar (a lupa).
  3. Escreva uma palavra que apareça dentro da fotografia — «Delta», «IKEA», o nome de um restaurante, uma palavra num cartaz.
  4. Passe pelos resultados de locais e pessoas até às fotografias em que essa palavra foi mesmo lida da imagem.

É só isto. A partir do iOS 15, o iPhone lê o texto impresso das suas fotografias em segundo plano, no próprio aparelho, e junta-o à pesquisa. Também pode escrever a mesma palavra no Spotlight (deslize para baixo no ecrã principal) e obter resultados de fotografias sem sequer abrir as Fotografias.

Se não aparecer nada, tente outra palavra do mesmo documento — o nome da loja em vez da rua, «fatura» em vez de «conta». A pesquisa só encontra palavras que o telemóvel conseguiu ler, e ele não lê tudo.

Tirar texto de uma fotografia: Live Text

A pesquisa encontra a fotografia; o Live Text deixa-o usar o que lá está escrito. Abra qualquer fotografia e toque sem soltar no texto — fica realçado exatamente como texto numa nota. A partir daí pode:

  • Selecioná-lo e copiá-lo (a tal palavra-passe de Wi-Fi do quadro, finalmente).
  • Tocar num número de telefone para ligar, ou numa morada para a abrir nos Mapas.
  • Traduzi-lo ali mesmo.
  • Tocar no pequeno botão de moldura de texto no canto para selecionar tudo de uma vez.

O Live Text também funciona em direto através da aplicação Câmara — aponte para um documento e toque no mesmo botão — e precisa de um iPhone XS ou mais recente com iOS 15 ou posterior. Se alguma vez se perguntou o que acontece por trás do ecrã, é o mesmo truque que os scanners usam há décadas; aqui fica uma explicação em linguagem simples sobre como o software lê texto em imagens.

O que lê bem — e o que lhe escapa

O iPhone é genuinamente bom a ler texto impresso e nítido, fotografado de frente e com boa luz. O problema é que os documentos no mundo real raramente reúnem alguma dessas condições.

Lê bem Escapa-se
Recibos impressos, etiquetas, sinais Caligrafia, sobretudo cursiva ou garatuja
Texto fotografado de frente Ângulos acentuados, papel curvado ou amarrotado
Boa luz, contraste alto Reflexos, sombras, recibos de papel térmico desbotados
Tipos de letra comuns Letras decorativas, letra miúda e densa
Fotografias tiradas como fotografias Capturas de ecrã de capturas de ecrã, imagens muito desfocadas

Nada disto é um defeito que se resolva nas definições. Um recibo fotografado de esguelha no banco do carro ao entardecer é simplesmente difícil de ler, tanto para telemóveis como para pessoas. Se um documento merecer ser guardado, volte a fotografá-lo bem esticado, com luz, a preencher o enquadramento — a sua pesquisa futura agradece. (Os recibos são os infratores clássicos; há um guia completo para desencantar recibos do rolo da câmara, caso seja essa a pilha que tem em mãos.)

Uma melhoria manual e barata: acrescente uma legenda. Deslize para cima em qualquer fotografia e escreva uma linha — «garantia da caldeira», «cartão de seguro da mãe» — e as legendas ficam pesquisáveis para sempre, sem leitura nenhuma. É maçador, mas funciona já hoje e não custa nada.

O problema de fundo: é preciso lembrar-se das palavras

Eis o limite que nenhuma técnica fotográfica resolve. A pesquisa das Fotografias encontra palavras que escreve, em fotografias que contêm essas palavras exatas. O que significa que só funciona quando já se lembra do que o documento dizia.

A vida real não lhe entrega as palavras. Aquilo de que realmente se lembra é:

  • «o recibo daquele café do outono passado» — mas não o nome do café
  • «o orçamento que o canalizador me deu» — que diz «PROPOSTA», não «orçamento»
  • «a minha receita dos óculos» — que diz «OD» e «OE» e o nome de um médico em que nunca reparou

Escreva «recibo» na pesquisa das Fotografias e vai obter as fotografias onde a palavra recibo está impressa — o que, na maioria dos recibos, não acontece. A pesquisa não percebe «do outono passado», não percebe «quanto gastei eu», e não consegue colmatar a distância entre aquilo de que se lembra e aquilo que o papel diz. É um comparador de palavras, e a sua memória não guarda palavras. Guarda significados.

Perguntar em vez de pesquisar

Essa distância — entre as palavras no papel e a pergunta na sua cabeça — é exatamente o que o Paperlock foi feito para colmatar. É uma aplicação para iPhone (brevemente) que guarda os seus documentos num cofre privado, protegido por Face ID, e que mesmo cada um deles: o que é, de quem vem, a data, o valor, até a caligrafia. Por isso, em vez de adivinhar palavras-chave, pergunta em português corrente — «encontra os recibos daquele café do outono passado» — e datas relativas como «o outono passado» simplesmente funcionam. As respostas chegam com os documentos de origem anexados, e se a resposta não estiver no seu cofre, ele diz-o em vez de inventar uma.

Também pode fazer a escavação por si: com a sua permissão, analisa o rolo da câmara no próprio telemóvel, escolhe os documentos prováveis e mostra-lhe os candidatos para aprovar — os originais ficam intactos nas Fotografias. A maioria das pessoas encontra centenas. Se está a ponderar se o rolo da câmara já chega perfeitamente, a comparação honesta está aqui: Paperlock vs. o seu rolo da câmara, e como funciona tem o panorama completo.

A versão curta

Use o que já vem incluído — é gratuito e surpreendentemente capaz. Pesquise nas Fotografias palavras que tem a certeza de que aparecem na imagem. Toque sem soltar para extrair texto com o Live Text. Volte a fotografar os documentos importantes bem esticados e com boa luz, e escreva legendas nos que vai precisar outra vez.

E saiba onde fica o teto: o seu iPhone encontra palavras, não respostas. No dia em que precisar da «fatura do veterinário lá por março, aquela com o valor da radiografia», a pesquisa de palavras vai encolher os ombros — porque a pergunta na sua cabeça nunca esteve escrita no papel.