O outro condutor já saiu do carro. Está toda a gente bem — verificou duas vezes — e a adrenalina começa a dar lugar a qualquer coisa mais parecida com irritação. Agora vem a parte que ninguém ensaia: os próximos vinte minutos no local, e as próximas semanas do processo junto do seguro.
Ambas as fases correm melhor com os papéis certos. Eis o que deve recolher, por ordem.
No local: recolha agora, organize depois
O telemóvel é a melhor ferramenta que tem enquanto está parado na berma da estrada. Use a câmara para tudo — as fotografias não têm erros de caligrafia.
- O cartão do seguro do outro condutor. Fotografe-o, frente e verso. Essa única imagem capta o nome, a seguradora e o número da apólice sem erros, o que é mais do que uma mão trémula e um bocado de papel conseguem.
- A matrícula e a carta de condução. Mais fotografias. Junte o número de telefone, introduzido diretamente nos seus contactos para não se perder.
- Os danos — os dele e os seus. Primeiros planos de cada amolgadela e risco, mais planos gerais que mostrem os dois carros e a posição em que ficaram na estrada. Os planos gerais resolvem discussões mais tarde; os primeiros planos, sozinhos, não mostram quem estava onde.
- O próprio local. O cruzamento, as marcas de travagem, a sinalização, o tempo, tudo o que ajude a explicar o que aconteceu. Trinta segundos de fotografias agora valem mais do que trinta minutos de «se bem me lembro» depois.
- Testemunhas. Um nome e um número de telefone chegam perfeitamente. As pessoas vão-se embora depressa.
- O número do auto de ocorrência. Se os agentes responderem à ocorrência, peça o número do auto e o nome do agente antes de se irem embora. Se não responderem, muitos estados permitem-lhe apresentar participação por sua iniciativa — e alguns exigem-na acima de determinado valor de danos, por isso confirme as regras do seu estado.
Há uma coisa que vai precisar de apresentar no local: o seu próprio cartão do seguro. Se o seu estiver reduzido a uma relíquia amarrotada no porta-luvas do carro que acabou de ser atingido — ou pior, em casa — é este o momento em que aprecia ter os documentos do seguro guardados no telemóvel. Uma fotografia do cartão serve. Uma cópia a sério num cofre que abre com a cara enquanto as mãos ainda tremem um bocadinho também serve, e muito bem.
A participação: o que a seguradora vai pedir
A maioria das seguradoras quer falar consigo no espaço de um ou dois dias, e a primeira chamada corre mais depressa se tiver isto à frente:
| Documento | De onde vem |
|---|---|
| O número da sua apólice | O cartão de identificação do seguro ou as condições particulares |
| Condições particulares | A página-resumo da apólice — coberturas, franquias, limites |
| Dados do seguro do outro condutor | A fotografia que tirou no local |
| Fotografias dos danos e do local | O rolo da câmara |
| Número do auto de ocorrência | O agente no local, ou a sua própria participação |
| Orçamentos de reparação | Oficinas — peça mais do que um, se puder |
| Registos médicos e faturas | Só se alguém ficou ferido |
As condições particulares merecem uma menção especial, porque a maioria das pessoas nunca olhou para as suas. São o resumo de uma ou duas páginas no início da apólice que diz para que é que está coberto, qual é a franquia e quais são os limites. Lê-las antes de falar com o gestor do sinistro significa saber se tem cobertura de carro de substituição, quanto vai pagar do bolso e se aquele «nós tratamos de si» ao telefone corresponde ao que realmente comprou. Costumam viver no mesmo email ou na mesma pasta da apólice — a mesma pilha do documento único e do registo de propriedade, que é uma pequena saga por si só (a papelada de ter um carro tem um talento especial para se espalhar).
Se alguém ficou ferido, mesmo que ligeiramente, vá ao médico com rapidez e guarde tudo: resumos das consultas, faturas e a papelada do seguro que vier a seguir. Esses documentos tornam-se confusos num instante — as faturas médicas e os formulários de explicação de benefícios são um género próprio — mas para a participação a regra é simples: guarde cada página que mencione a data do acidente.
As semanas seguintes: registe tudo
Uma participação raramente é uma chamada telefónica. São seis chamadas, dois gestores de sinistros, uma oficina e, possivelmente, a seguradora do outro condutor também a ligar-lhe. O hábito que o protege custa um minuto por chamada:
- Depois de cada chamada, anote a data, com quem falou, o número direto, se lho deram, e o que ficou acordado. Uma nota contínua no telemóvel serve perfeitamente.
- Ponha tudo por escrito sempre que puder. Se um gestor prometer alguma coisa ao telefone, um email educado a seguir — «a confirmar o que conversámos» — transforma uma promessa num registo.
- Guarde todos os documentos que o processo gerar: o número do sinistro, os orçamentos, o relatório do gestor, os recibos do carro de substituição, os recibos do reboque, a carta final de liquidação. Não decida o que é importante; guarde tudo até o processo estar fechado e pago.
- Não discuta culpas com a seguradora do outro condutor. Dê os factos, remeta-os para a sua própria companhia e deixe as discussões para os gestores.
Manter tudo ao alcance da mão
Repare no que uma participação realmente é: um exame de um mês sobre a sua própria papelada. Qual é o número da sua apólice? Qual é a franquia? O que dizia o orçamento da segunda oficina? Quando falou pela última vez com o gestor?
Pode passar nesse exame com uma pasta e disciplina. Ou pode deixar a pasta lembrar-se por si. É para isto que a Paperlock está a ser construída: guarda o cartão do seguro, as condições particulares, os orçamentos e os recibos à medida que os recebe, e lê cada um — de quem vem, a data, o valor — e arquiva-o sem que tenha de dar nome a nada. Quando o gestor lhe pede o número da apólice, pergunta ao telemóvel em português corrente e recebe a resposta com o documento anexo. Tudo fica atrás do Face ID, por isso a papelada pessoal de um processo inteiro não anda solta no rolo da câmara. É a ideia por trás da app, e chega em breve ao iPhone.
De qualquer forma, faça hoje a versão de cinco minutos, antes de precisar: fotografe o cartão do seguro e as condições particulares e ponha-os num sítio onde os encontre a partir do banco do condutor de um carro que acabou de ser atingido. O seu eu do futuro, parado naquela berma de estrada, vai ficar-lhe muito agradecido.